O preço dos preconceitos

Por muitas razões que se perderam na minha adolescência, nunca senti nenhuma atração pela cultura norte-americana. Desconfiava que tudo que chegasse enlatado para consumo em massa, vinha do tio Sam. Odiava a explosão de Macdonald's que se alastrava como uma febre destemperada.


Considerava abusivas as escutas telefônicas, os gritos dos corredores do DEIC, que perseguiam nossa juventude extraviada. A rebeldia, no entanto, me parecia condição para combater a normose ambulante, extrair a beleza das coisas e reinventar formas mais humanizadas de coexistência.

Os ícones revolucionários decepcionaram os anseios da esquerda, forneceram o passe livre para o tio Sam colaborar com os regimes totalitários e perseguir a lista negra. Dentro dela havia comunistas de carteirinha, muitos simpatizantes e boêmios, homossexuais execrados por uma sociedade que privilegiava o sexo enlatado e a hipocrisia moral.


O tempo passou, e eu demorei para descobrir os autores americanos, para desfrutar do colorido de Miami e da exuberância de São Francisco. Demorei para fazer as pazes com a minha juventude. Assim, são os contratos – a gente esquece de atualizá-los.


O tempo é o melhor alvejante. Mudam nossas prioridades, aquilo que era essencial já não faz o menor sentido. Por isso, é tão inteligente se atualizar, repensar e se rebelar. Mas até a rebeldia da maturidade não é a mesma. Ela pressupõe deixar de molho expressões encardidas; tirar o mofo dos pré-conceitos; colocar amaciante nos julgamentos, enfim, arejar para que o sol inunde os porões, escove as palavras amargas, adoce a falta de perdão e coloque um ponto final nas feridas abertas.


E, claro, maturidade implica usar o travessão que deixa o outro respirar, enquanto nós mesmos saboreamos a pausa. O que era na juventude demora (ou lerdeza), agora é puro encantamento - o molho saboroso da vida.

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